terça-feira, 22 de janeiro de 2013

A Fera Vermelha: Velhos e Mais Velhos (1/2)


Como toda boa história, a minha, começa em uma taberna. Estavam sentados à mesa: Druidix, o Druída Gaulês, Arthur, O Paladino, Lucius, o Gnomo Caçador e Leon, O Minotauro.
Eles frequentavam todos os dias a taverna Pérola Negra, que tinha esse nome pois Barney, o taberneiro, usava uma pérola negra no lugar de seu olho direito. Eles conversavam, comiam e cantavam, quando Líria, a filha do taberneiro, uma jovem de cabelos brancos e olhos azuis, se aproximou da mesa.
-Papai disse que essa rodada é por sua conta - Disse, colocando canecas de vinho sobre a mesa.
-Obrigado - Falou o Gnomo.
A garota se afastou para servir outras mesas. Neste momento a porta da taberna se abriu, e entrou um homem em vestes negras, que reconheceram como as vestes dos oficiais do castelo, ele trazia um pergaminho em suas mãos, que começaram a ler:
-"Krum, o Rei de Kirin, avisa que Ghrandir, o Orc Vermelho, está nas redondezas. Ele e suas tropas já saquearam e destruíram vilarejos vizinhos. O Rei avisa para àqueles que temem por suas vidas, escondam-se! Mas aqueles que tem amor pelo seu reino, e possuem coragem o suficiente, o Rei oferece MIL MOEDAS DE OURO para quem trazer a sua cabeça”
O homem fechou o pergaminho, colou um cartaz com o desenho de Ghrandir, um orc vermelho, criatura muito rara hoje em dia, limpou suas vestes, tentando tirar o cheiro de trago do lugar, virou-se soberbamente e saiu do estabelecimento.
Murmúrios se ouviram pela taberna, e até algumas lamentações e gritos de pavor. Meia dúzia de pessoas saiu correndo do Pérola Negra. O orc Ghrandir era bem conhecido naquele reino. Os bardos cantavam sobre os reinos que ele já tinha destruído. Não se sabia por que ele estava ali, mas todos podiam sentir que muito sangue seria derramado.
- O que acham? Eu não parto em uma aventura faz meses. Meu machado está chamando por uma! – Disse Leon para seus amigos, enquanto dava um grande gole de sua caneca e limpava os pelos do líquido que escorria por sua cara, ou focinho, não sei.
-Lucius sempre está pronto para uma caçada! – Falou o Gnomo.
-Que mania estranha essa de falar de si mesmo em terceira pessoa! Pare com essa maluquice! – Reclamou o Druída enquanto dava uma bela mordida num pernil suculento – Acho que debiamos cachá-lo sim. –Gulp- Os animais da floresta sentem cheiro de orc a muitos metros!
Arthur bateu a caneca com força na mesa após esvaziá-la – Então está decidido, para o orc! – Gritou
Muitos que estavam na taberna os olharam como se fossem loucos, mas alguns poucos os olharam com desdém, pois eles não eram os únicos a querer a cabeça de Ghrandir. Líria veio pela taberna se desviando agilmente dos bêbados e das mesas:
-Será que vocês não poderiam me ajudar a carregar alguns barris de vinho lá do depósito? Parece que os homens ficaram animados com as notícias de hoje e estão bebendo além do previsto.
-Mas é claro Líria – Arthur falou enquanto segurava e beijava a mão da dama.
Ela ficou sem graça, e saiu andando do Pérola Negra, fazendo um gesto para que a seguissem.
OOO
Após trinta minutos, eles estavam voltando para a taberna com uma carroça carregada de barris, quando uma pedra voou do alto da colina e acertou a roda da carroça, fazendo-a tombar, e os barris rolaram pelo chão. Quando olharam, viram um goblin sorridente que segurava uma pedra do tamanho de uma cabeça de homem em sua mão.
Mas seu sorriso não durou muito, pois com um gesto das mãos de Druidix, raízes saíram do chão e o enforcaram. Não o suficiente para matá-lo, porque um goblin veio por trás e acertou seu abdome com uma maça, fazendo com que ele perdesse o domínio da magia, e também o ar.O goblin aproveitou que ele estava caído no chão e acertou sua cabeça novamente com a maça. Druidix caiu desconcertado no chão.
-Mexeu com um amigo meu, mexeu comigo!!!! – Gritou Leon, brandindo seu machado.Ele acertou o goblin na cintura, partindo o coitado em dois.
Enquanto isso, Lucius calmamente mirava seu arco no goblin no alto da colina, que estava quase recuperado do enforcamento de Druidix. Quando ele foi disparar uma flecha certeira no peito dele, outro goblin surgiu, fincando uma daga em sua mão direita.
-Ahhhh! – Lucius urrou de dor, deixando o arco cair. Enquanto o goblin ria.
Leon viu seu  amigo caindo no chão, e sentiu uma fúria dominando seu corpo. Correu em sua direção e pulou para cima do goblin. A criatura pequena e verde foi esmagada pelas patas e o peso do corpo do minotauro.
-Vocês são politicamente corretos ou o que? Matem essas criaturas! – Zombou o enorme minotauro
-Quem sabe nós não podemos conversar com eles? – Sussurou Líria, completamente assustada.
Arthur sacou sua espada, olhou profundamente nos olhos de Líria, e disse com uma voz acolhedora:
-Acalme-se querida, logo essas feras não estarão mais aqui para te assustar, e poderemos tomar um bom vinho, comer uma boa carne, e rir.
O destemido paladino correu para o alto da colina, empunhou fortemente sua espada com as duas mãos, levantou-a no ar e pulou para cima da pobre criatura. Sua espada desceu, cortando o frio ar da noite, e rachou o crânio da criatura, desfigurando seu rosto. Abrindo seu corpo até o tórax. Depois retirou a espada do cadáver, limpou o sangue, e guardou em sua bainha.
-Criaturas deploráveis esses goblins- resmungava Lucius, enquanto Druidix derramava um elixir em sua mão, curando a ferida instantaneamente.
-Você fala isso porque não matou nenhum! HAHAHA – Riu o minotauro enquanto caminhava até Arthur para parabenizá-lo.
Neste momento, os aventureiros ouviram um bater de asas, e olharam para o céu. Contra a luz da lua eles viram uma enorme águia cortando o ar, e uma figura magricela montada nela. A águia deu um rasante, e a criatura desceu da águia, ao lado de Líria.
-Esses recrutas, não fazem nada direito! Era só pegar a garota! – Disse a criatura com uma voz rouca e metálica.
Os aventureiros viram que a figura que pulou da águia era um duende. Criaturas semelhantes aos goblins, porém com a altura de um homem, e quase sempre muito magras. Aparentava ter quase cem anos. Seus cabelos eram brancos e escassos, e tinha várias rugas e verrugas.
Ele agarrou Líria pelo braço, e então ergueu sua mão que segurava um cajado de madeira, que estava cheia de penduricalhos, como penas e miçangas. A águia agarrou o cajado do duende, erguendo-os no ar e os levando para longe.
-Não! – Gritou o paladino, mas eles já estavam a metros do chão.
-Aaah! Socorro! Papaaaaaiii! – Gritou desesperadamente a garota, enquanto era levada.
Druidix partiu em disparada para a águia. Fez com que uma rocha surgisse do chão, içando-o cinco metros no ar, então ele abriu seus braços, de onde começaram a brotar penas. Seus braços viraram asas, e em menos de um segundo, onde estava Druidix, agora havia uma águia. Mas o duende soltou um raio verde de seu cajado, que derrubou a águia no chão, e transformou-a de volta em Druidix.
-Líria...- sussurrou Arthur.
-Desculpe Arthur, ele me acertou logo que me transformei em águia, não pude desviar.
-Vamos avisar o pai dela! Talvez ele ofereça algo se a resgatarmos – Disse Lucius.
-Gnomos, só pensam em ouro, e mais ouro! Aquele seu potinho no fim do arco-íris já não está cheio o bastante? – Perguntou Leon
-Sempre tem espaço para mais, Leon. E vamos andando logo! Cada segundo que perdemos é precioso. A vida da garota corre perigo. Eu me importo com ela também.
OOO
-Ah sim! Esse velho duende é o segundo em comando do Ghrandir. Eu ouvi falar. Dizem que é muito forte. Talvez mais do que Ghrandir. – Resmungava um bêbado num canto enquanto Barney chorava por sua filha.
-Por favor, resgatem-na! Eu lhes dou o que quiserem! Ouro, vinho, hidromel! Tragam minha preciosa Líria de volta! – Pedia Barney em meio às lágrimas.
-Claro que vamos salvá-la, não é pessoal?! Não podemos deixar uma donzela em perigo! – Gritou o paladino.
-Meu machado está animado depois da batalha de hoje a noite! Vamos lá e matar aquele maldito Ghrandir!, MUAHAHAHA – Gargalhou Leon, assustando alguns bêbados.
-Depois do que aquele Goblin fez com minha mão, alguém tem que pagar por isso – Falou ranzinzamente o pobre Gnomo
-Eu acho que nó... COF COF COF – Começou a falar o Druída, mas a fumaça de seu cachimbo começou a aumentar, e fazê-lo tossir.
Saía muita fumaça, muita. E ela começou a tomar forma, e a se condensar. Quando viram, a nuvem de fumaça havia se tornado um homem. Um velho ancião, que tinha os olhos brancos devido à cegueira. Usava diversos colares, pulseiras e brincos. Fumaça escapava por sua boca e seus ouvidos, embora ele não fumasse nada. Ele abriu a boca, e começou a sussurrar:
-Se querem encontrar a Fera Vermelha, precisarão da ajuda daquele que vive na Montanha da Sabedoria...
-Quem diabo é você e o que fazia no meu cachimbo?! – Gritou o Gaulês, que era o que conseguia falar. Os outros estavam muito surpresos para isso.
-... Tenho muitos nomes... Ajudo os que precisam, e guardo aquilo que deve ser guardado... – dizia o velho, enquanto se dissipava em uma nuvem de fumaça.
-Pela barba da minha mãe, o que foi isso?! – Disse o minotauro, estupefato.
-Não sei, mas acho q não é uma boa contrariar seres sinistros que podem sair a qualquer hora do meu cachimbo. – Falou o Druida Gaulês.
-Sério que vocês vão atrás de um velho-da-fumaça que surgiu sei lá de onde?! – Reclamou o Gnomo, que só pensava em ouro, e mais ouro.
-Eu senti que ele era bom. Um ser em serviço dos deuses e das causas nobres, assim como eu. Vamos para a Montanha da Sabedoria, como ele disse – Falou o paladino, colocando a mão no peito, devido ao aperto que sentia por Líria. – E vamos agora!
OOO
Eles subiam a Montanha da Sabedoria, que tinha esse nome, pois ela não era feita de rocha, terra e minérios, mas sim de livros. A muito tempo atrás, os deuses se irritaram com os seres que andavam pela superfície, pois eles estavam tentando desvendar os mistérios da vida, e começando a questionar os julgamentos divinos, então eles juntaram todas as obras literárias e a queimaram, transformando-as em uma montanha negra, que hoje é chama Montanha da Sabedoria.
O conhecimento de hoje não chega nem perto do daquela época, principalmente porque ninguém mais se atreve a tentar aprender muito. O pouco conhecimento que restou daquela época ecoa na memória de uns poucos elfos e outras criaturas, que são vivas desde aquela época.
Quando chegaram ao cume da montanha, já era meio-dia. Lá no topo, encontraram uma pequena cabana de madeira. Leon bateu com sua mão pesada na porta, e um senhor que vestia uma túnica azul escura abriu. Ele tinha uma barba por fazer, e cabelos brancos que caíam até a cintura.
-Em que posso ajudar?
-Um velho-da-fumaça sinistro nos enviou para cá, dizendo que poderia nos ajudar a salvar Líria de Ghrandir. Ou a “Fera Vermelha”, como ele chamou. – O Gnomo disse, com um ar zombeteiro, desacreditado de que aquele velho os ajudaria de alguma forma.
-Oh, meu deus. Eu temia que isso acontecesse um dia. Aquele maldito velho, sempre aparece na última hora. Mas sempre é assim nas grandes aventuras não? Sempre na última hora. – O velho falava consigo mesmo.
Ele entrou na cabana, revirou em algumas prateleiras, derrubando bandejas e canecas de metal. Ele voltou a porta segurando uma bota velha na mão. Deu uma boa olhada nos aventureiros, como se estivesse analisando se eram capazes. Aquele olhar que os professores de Educação Física dão para os gordinhos que vão fazer o teste pra o time, sabe? Sim, esse olhar.
-Bem, o velho que mandou vocês. Segurem nessa bota. – O velho falou enquanto estendia a bota para eles.
-Quem é esse maldito velho? – Perguntou Druidix.
-Depois de todos esses anos, eu parei de tentar a responder a essa pergunta. Simplesmente aprendi a confiar nele. Ele tem muitos nomes, ajuda quem precisa, e guarda muitas coisas, é só o que eu sei. Agora segure na bota! – Falou o velho, de uma forma irritadiça. – A propósito, sou Marvin... E se querem chegar antes que a garota vire uma paçoca de sangue, é melhor segurarem na bota!
O paladino segurou instantaneamente na bota. Lucius, que só conseguia pensar no ouro que iria ganhar por resgatar Líria, e matar o orc, também pôs a mão na bota. Druidix não tinha nada melhor pra fazer, ou era isso, ou catar umas erva, decidiu por a mão na bota. “Meu traseiro está coçando” foi o último pensamento do minotauro antes que ele colocasse a mão na bota, e o grupo fosse sugado por uma luz branca e entrassem em um portal.
Quando recobraram a consciência, estavam em uma floresta densa e escura. Não se via estrelas no céu, que parecia ser tomado por uma névoa negra. E nem Marvin nem a bota estavam ali. O único caminha que tinham a seguir era um corredor verde que guiava até uma porta de pedra incrustada no sopé de uma montanha, que era iluminada por uma tocha a meia luz.